Os Clássicos já Twitavam

Olá leitor, antes de começar a ler o artigo, reflita sobre o significado da palavra grunhir, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa:

grunhir

v. intr.
1. Soltar grunhidos (o porco).
2. Resmungar.
3. Soltar vozes que lembram a do porco.

“As ideias belas e verdadeiras pertencem a todos”. (Sêneca)

“Não há nada como o sonho para criar o futuro; utopia hoje, carne e osso amanhã…” (Victor Hugo)

O que dizer dessas duas frases? São curtas, contêm um imenso significado e foram cunhadas por clássicos da história da humanidade, certo? Frases que poderiam preencher 140 caracteres, certo? E que podem muito bem serem transplantadas para o Twitter sem perda de significado, importância ou crédito de seus autores. Onde quero chegar dizendo isso? Quero contestar a indagação do Saramago em dizer que o Twitter é o exemplo da tendência ao monossílabo.

O famoso escritor José Saramago em uma entrevista ao Prosa Online fez a seguinte contastação:

O senhor acompanha o fenômeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?

SARAMAGO: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.

O Saramago é um autor fenomenal, mas discordo em ele dizer que o twitter seja sinônimo de um movimento em prol do monossilábico. O Twitter é objetivo. É uma ferramenta de informação e compartilhamento de idéias na Internet. É um nó maior composto de nós tecendo uma democracia da informação, onde mesmo os “tweets” de menor relevância são aceitos, por uma questão de liberdade de expressão. Uma pessoa pode não usá-la da melhor forma possível, mas tem o direito de fazê-la útil para si, algo que julgue ser bom para seu universo, em sua perspectiva.

O Twitter na essência não difere do que os clássicos faziam. Não difere dos provébios. É rizomático. No twitter a informação se espalha e a qualidade de um tweet é conferida e garantida por cada usuário que o recebe e repassa. Não são grunhidos, são vozes no meio de uma ideologia de dominação pela informação. São pequenos textos sem pretensão, mas parte de uma revolução pelo direito básico de se expressar.

“O homem não perdeu o silêncio, não perdeu apenas um tributo. Foi modificado em toda a sua estrutura.” (Saint-Exupéry)

“Quando existe avanço tecnológico sem avanço social, surge quase automaticamente, um aumento da miséria humana.” (Michael Harrington)

Será mesmo que a humanidade tende ao monossílabo? A @Camilissima costuma me falar de uma frase sempre repetida pelo seu professor: “A tecnologia intensifica nossos desejos”. Os monossilábicos permanecerão nesse estado caso não mudem na essência, na educação, na maneira de ver o mundo, em seus desejos, no seu dia-a-dia. Culpar a tecnologia parece contraditório, afinal a técnica é extensão do cotidiano humano. A tecnologia nos complementa, mas não é nossa essência e comprimir idéias não é o mesmo que grunhir.

Não tendemos ao grunhido. Somos influenciados (ou dominados) por ideologias, por uma estrutura que nos leva a vestirmos a identidade de Homer Simpson, de consumidor passivo de informações. A internet desintegra essa estrutura, basta ter critério. Basta ter motivação e educação. Basta refletir sobre as oportunidades e as possibilidades de crescimento que a rede nos oferece. Basta influenciar outras pessoas a mudarem, ao invés de passivamente deixarem o outro se jogar no precipício da ignorância. Vamos ser mais humanos e menos deuses.

“O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário.” (Sêneca)

Eu vejo também que existe uma constante luta contra a tecnologia e a liberdade de expressão/conhecimento. Em uma época de ressignificações, quebra de paradigmas e subjetividades substituindo o método cartesiano de pensar, os poderosos sobre a informação tentam nos calar. Da mesma forma que fizeram com Sócrates, o poder sobre a liberdade quer o fim das contestações, do debate, da intelectualidade. Demeritar é mais fácil e mais conveniente, afinal Twitter é coisa de “desocupados”, “piratas” e de “revolucionários do sofá”.

Em vez de julgar, vamos experimentar as coisas e construir algo novo. Vamos remixar nossas idéias. Vamos criar uma rede de contatos que permitam o crescimento conjunto. Julgar antes da experimentação é puro preconceito.

O senhor acompanha o fenômeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?

SARAMAGO: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.

One Comment

  1. Diego,
    cheguei até aqui por conta de sua bela tradução do artigo sobre as novas fontes de receita do Global Voices. Acho que o Global é um projeto com uma responsabilidade enorme. Ao mesmo tempo, a coisa tomou uma proporção acho que assustadora. Bem, vira-se indústria, não há o que fazer.

    Torço para que os projetos por aí sigam sempre favoráveis. Que Georgia Popplewel também tenha ficado satisfeita com o trabalho. PAZ para todos vocês.

    Quanto à polêmica. Nem me dei nem ao trabalho de ver o que Saramago falou. Sei lá, não conheço Saramago além do Saramago que se encontra mídia. Vê, voltamos ao ponto mída.

    Nos falamos. Se cuida!

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