Blogs, Jornalismo e Participação

Quando será que os meios de comunicação de massa vão entender o que nós blogueiros e os netizens queremos dizer com ‘participação’?

Uma das coisas que mais me intrigam na minha saga diária de leitura de blogs é como, cada vez mais, os blogs estão sofrendo restrições e sendo demeritados e oprimidos pelos meios de comunicação de massa e por governos. O que não deixa de ser curioso também pois o próprio jornalismo corporativo está entrando – mesmo que vagarosamente – na onda dos blogs e os governos de alguns países estão sutilmente adentrando a blogosfera (a exemplo do blog do Planalto que logo mais deve ser lançado no Brasil).

Uma rápida pesquisa no Global Voices Online, por exemplo, permite descobrir como vários países atentam contra a liberdade de expressão das populações em geral, com alguns artigos especificamente voltados à blogosfera mundial. Mas será que vale o esforço embargar informações atualmente? A internet é algo tão fenomenal que as informações escapam pelos nossos dedos de maneira tal que se torna impossível controlar a difusão de uma notícia. Não há mais como calar as pessoas. Ao menos não sem manchar a própria imagem institucional (como no caso da China que abertamente defende sua censura e das manifestaões recentes no Irã anti-Ahmadinejad que resultou em feridos e mortos).

Temos então uma dicotomia pela opressão: a mass media agindo cautelosamente e de forma simbólica numa esfera de influências e manipulação, calando-se diante de fatos importantes para a população e algumas autoridades governamentais atuando lado a lado com essa ideologia: vide esse post no Global Voices em Português. No final das contas, é o Jornalismo Participativo e a blogosfera que vêm fazendo emergir assuntos os mais bizarros possíveis e mais inescrupolosos, tirando os panos quentes colocados pela mídia tradicional.

Não preciso ir muito longe para mostrar um evento de descrédito de um blog perante a mídia comum. O blog da Petrobras sofreu bastante na caneta dos jornalistas tradicionais, defensores da mídia engessada, do unilateralismo e  dos acordos tácitos entre empresas. E mesmo assim, os internautas brasileiros se mostraram aptos a compreender pontos positivos e negativos da atitude da Petrobrás. Por semanas o debate a respeito dessa situação fervilhou no Twitter e nos blogs, e vários pontos-de-vista foram expostos. Isso é participação.

A democracia da informação está na transparência com que ela é distribuida. Sinto muito, mas distribuir notícia em latas de sardinha para  a população não é democracia. Ainda mais quando esclarecemos que o compromisso de qualquer empresa de notícia é, indubitavelmente, o lucro. Noticia-se o que se dá mais lucro e se repudia o que não é considerado importante ou ameaça a credibilidade e a ideologia de dominação pela informação que predomina no país e em tantas outras ‘democracias’ espalhadas pelo planeta.

Nesse sentido, o que seria mais válido: um artigo criado por um jornalista vinculado a uma corporação gigante de notícias ou o relato de uma pessoa que está no local em que a notícia acontece? Será que as reportagens da BBC e da CNN são mais importantes e têm mais crédito do que os tweets enviados por iranianos no último mês e que são açoitados pela polícia local? Ou que reportagens da TV Pública Chinesa têm maior qualidade ao endemonizar seus cidadãos do que o desabafo de blogueiros que lutam pela liberdade de expressão e criação textual e que tiveram seus blogs censurados? O bom senso me diz que não.

Não estou pedindo para a mass media adotar a estrutura dos blogs deliberadamente. Isso pode surtir um efeito negativo para seus próprios investimentos e seu modelo de negócio. Mas uma aproximação maior com o público e agir concomitantemente à blogosfera seria, no mínimo, bom senso. Agir de acordo com o interesse da população em sintonia com verdade. Pode parecer utópico, mas acredito que seria frutífero para o jornalismo adotar uma posição diferente da atual e sustentar a produção jornalística participativamente.

2 Comments

  1. Excelente post, camarada. Concordo plenamente com tudo o que foi dito e vou mais além: Seria a hora de uma união mais forte da blogosfera?

    Levando em conta que boa parte dos blogueiros independentes – de esquerda – se conhecem e tem o costume de ler uns aos outros, não seria interessante uma maneira de agregar – seja num feed único, seja num portal participativo (indo do mais simples ao mais complicado), digamos que um portal com todos os posts dos membros e tags para sub-temas, um fórum de discussão além do espaço para comments, algo integrado msm – e mantendo a independência de cada blog e sua origem?

    É uma forma de fortalecer, agregar e evitar que uns fiquem sós e perdidos e alvo de ataques fáceis.

    DAria visibilidade, permitiria uma maior reação À tentativas de censura e pressão e por aí vai.

    Só idéias!=)

  2. Diego Casaes disse:

    Concordo sim, e acredito que aos poucos fazemos isso. O Trezentos é um dos exemplos nacionais de blogagem coletiva, mas ainda falta muito o que fazer. Entre os gringos, o Global Voices Online tem um fluxo de pageviews muito grande e uma presença bastante importante na web, além de outros exemplos que no momento não lembro.

    Mas acho que isso vai muito de critério e organização mesmo. Organização de um feed de blogs com um objetivo “informacional-jornalístico” comum é algo que precisa de um planejamento bastante minucioso, e poucos estão dispostos a se doar para esse tipo de estratégia. Mas um dia chegamos lá! Eu acredito em utopias :P

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